Sobre igualdade e o mercado de trabalho

Não é de hoje que há discussão sobre a igualdade de gênero, a equidade de salários, a cultura do estupro e do assédio, os privilégios e a diversidade. Tratados de forma mais aberta e agressiva pelas pessoas e pelos meios de comunicação. Nem é de hoje, nem está perto de se encerrar. Vem-se dando passos curtos e lentos em direção a melhorias nos ambientes sociais e de trabalho com relação a estes conceitos, a estas culturas. Afinal, muito é da formação social, religiosa e histórica do homem, enraizadas mesmo nas mentes mais jovens, mais arejadas.

Alguns destes conceitos se esquivam dentro da gente e até nos fazem parecer totalmente abertos, por uma questão de esclarecimento e sensatez, quando de repente, se apresentam genuinamente, em uma discussão, em uma escolha no ambiente de trabalho ou na legitimação e reconhecimento público de símbolos de confiança sustentados por essas culturas. Como quando preferimos ou confiamos mais em uma informação sobre determinado assunto que vem de um homem, ou mesmo, na posição de mulher, na quem vem de outra. Ou quando achamos que um profissional de cabelo é melhor quando é gay, Relações Públicas, ou da área de comunicação, mas não quando advogado, juiz ou médico. Ou quando, naturalmente, contratamos um homem à revelia de uma mulher que informou ser mãe.

Revolta olhar dessa forma, escrita, clara, algo tão injustificável e sem sentido. Mas essa coisa ultrajante acontece, e às vezes, mesmo sem nos darmos conta, fazemos parte. Votamos a favor. Rotulamos palavras e percepções como a de segurança, de respeito, de admiração e de competência a determinado grupo, gênero ou pela preferência sexual/afetiva. E assim se constroem a vida em comum, a sociedade, os negócios. É como arrancar uma árvore secular, se é que existe, pois não entendo de árvores, puxar sua raiz, e quando se dá conta, ela anda por baixo das casas, dos estabelecimentos comerciais, dos prédios, escondida, enterrada, mas lá. Quase impossível de tirar. Quase. E aí, se arranca a parte visível, possível, o que dá. Deixando o resto enterrado, mas presente, lá embaixo, na base.

Fazer diferente envolve empatia, respeito e educação. Envolve a capacidade de lançar um olhar diferente sobre a sociedade, sobre o trabalho, sobre os formatos das coisas, sobre as pessoas. Envolve pensar que como as coisas são feitas é apenas um jeito de fazê-las, não a única. Que a confiança, a honestidade, a competência e o sucesso não são privilégio de alguns, mas sim de todos que os buscam de verdade. Com trabalho. Mesmo que em formatos diferentes. Roupas ou posicionamentos. Mesmo com família para manter e atender. Ou mesmo, orientação sexual.

Em pesquisa divulgada recentemente sobre igualdade de gênero no mercado específico de marketing e propaganda, os homens seguem donos dos maiores cargos, dos maiores salários e dos microfones. Ainda são maioria no reinado. Nem sempre nos cargos de baixa liderança, mas sim na chefia maior. Entre palestrantes, CEOs e cargos sênior. Ainda tem sua carreira menos prejudicada com a chegada dos filhos, levando-se em consideração o formato atual de produção e trabalho. Este que ainda é a maioria e toma expediente de oito horas ao dia, com intervalo de almoço. Que é presencial. Neste modelo, neste jeito de olhar e medir produtividade e o profissional, com o qual ainda nos deparamos atualmente.

Pois bem, os resultados já foram melhores que os da pesquisa anterior, mas frente aos dados que comento aqui, temos um árduo caminho pela frente. E muitas caixas para derrubar, para abandonar. Porque só somos iguais quando comparados pelo resultado de nossos esforços, pelo produto que geramos da gente, por esta capacidade que independe de protocolos, de história social, de cultura. Quando não somos avaliados pelo antes, pelas roupas ou por quantos filhos carregamos. Ou mesmo pela nossa preferência afetiva. Quando o mercado vestir, conscientemente, novos óculos. E que assim, visualizar e valorizar possibilidades diferentes das que consideramos até ontem.

*Juliana Silveira é criadora do blog New Families, onde escreve semanalmente com um olhar de sensibilidade única sobre o recomeço da família após o divórcio. É também autora do livro Divórcio: A Construção da Felicidade no Depois.

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