Histórias de fitas rosas, de janeiro a janeiro…

“Câncer de mama é a proliferação descontrolada das células da mama da mulher, que perdem a capacidade de morrer.”

Esse câncer de mama é porreta mesmo. São células vivas que perdem a capacidade de morrer. Quanta vivacidade! Células que se negam a desfalecer, por motivo químico, fisiológico, ou seja qual for. Vivem e se multiplicam. Que loucura isso… Enquanto vivem, adoecem a pessoa.

São 58.000 novos casos por ano, na maioria mulheres, que tem 100% mais chance de desenvolve-lo do que os homens. Ou seja, ser mulher e estar envelhecendo já é um fator de risco.

Trago este assunto por estarmos vivendo o Outubro Rosa. Quando os holofotes estão sobre esta doença que abate este tanto de gente. Este tanto de mulheres. Que não respeita tempo, idade, poder aquisitivo, quantidade de lutas que já lutou, ou o número de pessoas que impacta em uma família, que fica no risco eminente de perder um ente para a doença.

E que o faz, de janeiro a janeiro. Tendo em outubro, seu momento de glória.

Prevenção

Falar da importância de se tocar, de realizar o autoexame, a mamografia preventiva e a visita regular ao médico ginecologista, todo mundo sabe. Está dito e batido em todos os canais de comunicação possíveis neste mês de outubro. Reforço aqui, é claro, pois os índices deste tipo de cuidado ainda são aquém das expectativas dos órgãos de saúde, e aquém do que nos propomos ainda como mulheres no cuidado a nós mesmas. Mas acho importante trazer junto a este assunto, atitudes positivas. Demonstrações de força e coragem. De quem transforma a experiência da doença em amor. Em fortaleza, em mudança de comportamento. Em redefinição de valores. E nestes casos, se sai melhor. Se desenvolve uma resiliência admirável.

Conheci uma mulher linda em uma viagem a Nova Iorque. Uma brasileira, que com o marido e o filho, toca um negócio próprio, e uma vida fora daqui. Um desafio para qualquer um, em qualquer lugar, e lá, ainda, na condição de imigrantes. Longe da família de origem e dos amigos.

Eis que um ano depois de os ter conhecido, sou surpreendida nas redes sociais por um post dela falando sobre a luta contra um câncer de mama descoberto naquele ano. Sobre a dificuldade de receber o diagnóstico longe do seu país, da sua família, do seu apoio profissional brasileiro. Mesmo considerando que lá, o atendimento é de primeiro mundo. Mas foi um diagnóstico dado em inglês. Nem a língua era a dela. Nem este conforto ela teve. Nem o cuidado empático e humano, peculiar do brasileiro, ainda uma característica positiva nossa. Seu diagnóstico foi dado em um centro de tratamento à mulher, na cidade de Nova Iorque.

Choque e otimismo

Essa bela moça, de um entusiasmo ímpar para a vida, se viu frente a um tratamento de câncer, do outro lado do hemisfério. E como que assistindo a uma novela, acompanhei daqui, aflita, a sua história. Em resumo, ela viveu o câncer. Ela, marido e filho. Entraram na jornada da cura de cabeça. Se apoiaram uns nos outros, sofreram juntos e se fortaleceram na sua célula familiar. E com o entusiasmo de uma célula cancerígena, que se nega a morrer, ela também se negou. E usou de toda a sua experiência, mesmo nos momentos mais vulneráveis, para ajudar a outras mulheres através do seu exemplo. Do seu olhar. Humano, doído, mas otimista.

Além de usar a sua página pessoal para dividir cada momento com os seus amigos e seguidores, deu seu depoimento frágil e grandioso em uma entrevista que assisti, aqui no Brasil, em um canal online de notícias e dicas para brasileiros que vivem nos Estados Unidos. A assisti sem seus lindos cabelos, aqueles que conheci no nosso primeiro encontro. À assisti, emocionada em falar de família, de saudade, de medo, de vida. A percebi, lutando. Muito mais linda e forte do que lembrava dela. Porque ali, a vi ter mais vida que o câncer que a abateu. E ali, multiplicou sua vontade de viver, mais rápido que a doença o fez.

Isso para mim é inspiração. Isso é para mim, Outubro Rosa. Ver, além da campanha tão necessária de prevenção, histórias de garra. Ver a vida do ser vencer a vida da célula. Ou pelo menos tentar. Pelo menos lutar. Pois se células malignas podem, porque não um ser benigno?

*Juliana Silveira é criadora do blog New Families, onde escreve semanalmente com um olhar de sensibilidade única sobre o recomeço da família após o divórcio. É também autora do livro Divórcio: A Construção da Felicidade no Depois.

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