Final de ano, feriados das festas, pontes, férias coletivas… oportunidades de parar. De dar um tempo no trabalho. Arejar a cuca e curtir com a família. Empresas aproveitam o momento naturalmente menos produtivo por conta das festas natalinas e de ano novo para esticar as penas, dar um break. Talvez a época do ano em que a expectativa da empresa e do colaborador quanto a “parada” se encontram. Estão mais alinhadas em patamares positivos. Pois para a maioria interessa parar. São tempos de outros focos.

Este assunto que permeia o desgaste da atividade profissional tem me desafiado bastante, já que o trabalho segue associado a dor e ao sofrimento, a “atividade dura” para a maioria das pessoas, mesmo considerando que muitos já vivem outra realidade, com o trabalho vinculado ao propósito de vida, a evolução, à conhecimento e principalmente, ao prazer.

Lendo sobre o trabalho e as paradas para o ócio, encontrei materiais interessantes sobre essa relação e o prazer, o aprendizado e a criatividade. Conhecem o mito de Sísifo? Pois bem. Sísifo foi condenado pelos deuses a repetir por toda a eternidade a tarefa de subir uma montanha carregando uma pedra enorme e no cume soltá-la para rolar encosta abaixo. Em certo momento, Sísifo desce a montanha para agarrar a pedra e novamente subir com ela. É nesse momento que, livre do esforço, ele pensa sobre sua condição e se revolta sobre a tarefa absurda e sem sentido que terá que fazer por toda a vida…

Está aí a importância do tempo livre, olhem que interessante. O instante em que ele reconhece sua condição só aconteceu no tempo livre, momento em que ele deseja ter uma existência com mais sentido.

Liberdade no Ócio

Na obra O Capital, Marx escreve: “quanto mais o operário se esgota no trabalho, tanto mais poderoso se torna o mundo estranho, objetivo, que ele cria perante si, mais ele se torna pobre, e menos o mundo interior lhe pertence”. Sob essa ótica, o trabalho ao invés de enobrecer e fazer evoluir, distancia do eu, desconecta o ser, ilude e manipula.

Para o sociólogo italiano Domenico De Masi, o cara do conceito do “ócio criativo”, a nossa sociedade precisa “se libertar” do trabalho. Ele acredita que o futuro em uma sociedade “pós-industrial” pertence a quem souber libertar-se da ideia tradicional do trabalho como obrigação ou dever e for capaz de apostar num sistema de atividades, onde o trabalho se confundirá com o tempo livre, com o estudo e com o jogo. Enfim, com o “ócio criativo”.

“Existe um ócio alienante, que nos faz sentir vazios e inúteis. Mas existe também um outro ócio, que nos faz sentir livres e que é necessário à produção de ideias, assim como as ideias são necessárias ao desenvolvimento da sociedade.”

Trazendo Sísifo, não é durante o exercício do trabalho que nos damos conta de coisas, de alternativas ao que sempre foi assim. Quando questionamos o que já existe. Quando criamos outras possibilidades. Quando buscamos sentido. Estes movimentos acontecem quando paramos. Assistimos a vida, desprendidos de compromisso. Quando fazemos uma atividade que dá prazer, quando lemos ou estudamos algo que nos interessa.

Ócio Não é Preguiça

A grande maioria das pessoas confunde ócio com preguiça. A principal diferença é que o ócio pode gerar produtividade e ter alguma significância e a preguiça é insignificante por si só.

Ao contrário do que muitos acreditam, ócio criativo não significa não fazer nada. Por ócio criativo entende-se a união entre trabalho, estudo e lazer, de forma que alguém possa experimentar a riqueza gerada pelo trabalho, o conhecimento ocasionado pelo estudo e a alegria proporcionada pelo lazer. Ou seja, aqui nos vinculamos com o resultado destes movimentos. Seus produtos, seu sabor. Nos conectamos ao prazer da atividade.

Trabalhar é necessário no intuito de gerar valor para organizações e indivíduos. Só que esse valor, hoje, não está somente em poder, propriedades e no dinheiro, mas também na capacidade de inovação, de criatividade e geração de conhecimento.

Infelizmente, a cultura empresarial de hoje ainda é organizada em respeito ao modelo antigo de linha de montagem, na qual se mede a produção pelo número de horas trabalhadas. E a falta de tempo, na verdade, tornou-se uma desculpa para se refletir menos, e é justamente das reflexões que nascem boa parte das grandes ideias.

O Trabalho Mais Difícil

Henry Ford bem disse: “Pensar é o trabalho mais difícil que existe. Talvez por isso tão poucos se dediquem a ele.”

Então, sugiro pensarmos neste intervalo de tempo, neste final de um duro 2018, sobre a possibilidade de adotar o ócio criativo na vida. Sobre a alternativa de sermos profissionais e empresas mais criativas, mais produtivas, com menos despesas, como resultado do pensar. Um cenário onde trabalhadores teriam mais tempo para a vida pessoal, revitalizariam seus relacionamentos com a família, com o bairro, com a cultura… alimentariam a própria criatividade.

Pois dinheiro sozinho não traz felicidade, apenas a simula. E pessoas infelizes simulam uma condição de empregadas para ostentar seus ganhos e poder consumir, quando muitas vezes se esquecem de que estão sendo, elas próprias, consumidas.

Domenico diz que “é necessário aprender que o trabalho não é tudo na vida e que existem outros grandes valores: o estudo para produzir saber; a diversão para produzir alegria; o sexo para produzir prazer; a família para produzir solidariedade, etc.”

E não é!? Fez sentido para mim. Espero que faça também a você, e te leve a uma vida mais feliz, de mais prazer.

Um feliz Natal e um 2019 cheio trabalho gostoso, aprendizado que faz sentido, prazeres que tocam a alma e muito ócio criativo!

Juliana Silveira é co-founder da Dtail Gestão de Conteúdo e criadora do blog New Families, onde escreve semanalmente com um olhar de sensibilidade única sobre o recomeço da família após o divórcio. É também autora do livro Divórcio: A Construção da Felicidade no Depois.

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