Como não falar esta semana da nova realidade que abateu as redes sociais com o fim do até então aparente número de “visualizações” nos vídeos e dos “likes” nos posts e fotos? Como não refletir sobre o que tudo isso quer realmente dizer?

Confesso que não tento adivinhar o que o Mark Zuckerberg, dono do Instagram, intuiu quando decidiu a extinção dos “likes” em uma das redes sociais mais importantes do Brasil e do mundo. Até porque o cara é muito inteligente e também empreendedor, e só Deus sabe o que ele enxergou das entranhas desse negócio digital, e que nós, reles mortais, ainda não vimos. 

Ocorre que, pelo menos para mim, isso não importa. Importa é que se tirou desse jogo da comunicação de CPFs e CNPJs o fator máximo da vaidade e da competição. Este que não faz bem nem às marcas, nem às pessoas, nem ao senso comum, nem às relações humanas.

Não se posta mais o que é genuíno, criativo, honesto e de conteúdo, que não seja para adquirir o maior número de likes possíveis. Outro dia, em uma conversa despretensiosa, na saída de um curso de marketing digital, ouvi uma “blogueira” dizer que agora faz fotos com os gatos dela sem maquiagem e do sofá, pois fotos assim dão mais curtidas. 

Não deveria ser essa a motivação do movimento de espalhar conteúdo e propagando por aí, ou eu estou louca?

“Tudo virou mural”

Pois então. Ganhamos todos desde o último dia dezessete de julho, quarta-feira. Ganhou o conteúdo de qualidade. Ganhou a foto que eu gosto e que fala por mim, independentemente do número de fãs que ela terá. Ganhou a fala que realmente representa marcas e pessoas. Ganhou a comunicação. E aí, trago uma reflexão que me veio de cara quando assisti a esta ideia de gênio do nosso amigo Mark: o Instagram virou um espaço de mídia, de comunicação, como os outros que conhecemos desde que mundo é mundo. Como ouvi nos meus primórdios, na formação em comunicação social no ano 2000: no final das contas tudo virou mural. 

Painel de mídia exterior, jornal impresso, revista, painel em LED, livro, encartes de lojas e supermercados, todos sobreviveram às revoluções tecnológicas sem validações. Todos espaços de comunicação nos quais pessoas e marcas registram quem são e as suas promessas, sem receber um “like”. Ou você já viu “likes” expostos no mural da sua empresa, no encarte do Zaffari ou em uma propaganda de rua para cada pessoa que passou, olhou e gostou? Eu nunca vi. 

Até seria bacana que o dono da mensagem pudesse ver, o que na mídia OOH já acontece com soluções ligadas por bluetooth aos telefones dos passantes, e que o nosso amigo Mark manteve como privilégio dos proprietários de perfis do Instagram. Porém, acabou o exibicionismo e a competição de egos. Acabou o movimento do agradar ao invés de ser. Acabou a fantasia criada a partir do que gera mais validação, para dar espaço ao realmente bom que temos a mostrar. 

Era da Verdade

Entramos na era da verdade e da criatividade. Da aparição do que é real, e que, feio ou bonito, faz parte do que o comunicador é e tem para entregar. Da dedicação da nossa criação e geração de conteúdo que sejam realmente bons, relevantes, impactantes e que falem da nossa essência, sem que, no outro dia, uma escorregada pública em uma publicação, viralize. Vire tendência porque recebeu muitos “likes”, e não porque foi bem feito. Assim como já acontece nas outras mídias, nos outros canais de comunicação. Nos painéis front light, no mobiliário urbano da cidade, quando uma linda foto, bem produzida, de uma cena com o sapato da nova estação, de um prato de frutos do mar ou do último lançamento de smartphone, é pensada e publicada com o carinho que se tem com as palavras quando queremos aproximar as pessoas de nós. Com dedicação, coragem e verdade.

Como disse no começo, o que está por trás de tudo isso, eu não sei. Para mim só parece que o mundo é feito de ciclos, e que coisas velhas viram novidade a todo o tempo, assim como novidades envelhecem. Assim como a moda, a arquitetura, o design de carros e alguns valores, a comunicação digital, traduzida nas redes sociais, recuou no modo para avançar no propósito. Isso traz valor. E eu gosto disso.

Juliana Silveira é co-founder da Dtail Gestão de Conteúdo e criadora do blog New Families, onde escreve semanalmente com um olhar de sensibilidade única sobre o recomeço da família após o divórcio. É também autora do livro Divórcio: A Construção da Felicidade no Depois.

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